Os novos modelos de televisão e as reportagens feitas “in locus” sobre o cotidiano das cidades e da própria realidade social mais ampla se imbricam de uma maneira tal que os que, passivamente, se projetam nessas realidades imaginam serem profundos conhecedores dos acontecimentos e, até mesmo, de modo indireto, testemunhas oculares dos fatos.

É, então, a hiper-realização da vida social um processo que induz, os mais inocentes, a crerem que podem conhecer a realidade a partir do novo senso comum – o senso comum midiático – que, nos dias de hoje, em tempos de pós-verdade, vem se constituindo num dos maiores obstáculos ao conhecimento em si e à própria construção do diálogo.

Como explicar que o que se vê é um recorte parcial da realidade que se insere numa floresta de problemas e questionamentos que tornam o senso comum (o que se vê, o que se ouve e etc.) algo bastante frágil diante da complexidade do fato em si ?

A tendenciosidade do “eu sei, eu vi” é difícil de ser desmascarada por muitas razões, inclusive por razões que extrapolam os ditos “fatos” e se situam no campo da psiquê humana que abriga uma porção de outras verdades que vivem, até mesmo, ao arrepio dos acontecimentos. Um verdadeiro obscurantismo crescente em função das big techs contrapondo o mundo da razão. O que diria Rousseau, entre outros grandes iluministas, caso estivesse presente nesse dito mundo atual que vem nos remetendo a idade média?

Eis, então, um dos dilemas que alimentam a busca da verdade e que tem levado o homem a trilhar muitos caminhos, na medida que diante de tamanho obstáculo e não se resignando com o “mundo da doxa”, só resta ao nosso amigo, o homem, acreditar que a politização do conhecimento possa dar transparência aquilo que não pode mais ver plenamente com os seus olhos.

As fragilidades da tese do “lobo solitário”.
Querer conduzir o nosso raciocínio no sentido de que o comportamento político do Tiü França possa ter sido o produto de uma ação isolada, feita por alguém que, em determinado momento de sua vida, ficou lelé da cuca, é algo que não se casa com o processo político em curso. E, para tanto, basta ver o que ainda circula nas redes sociais da extrema-direita.

Assim, é preciso aprofundar as leituras do inquérito e, principalmente, levar em conta o contexto do crime contra o Estado Democrático de Direito a luz do princípio filosófico que nos ensina que “é preciso ver a floresta e não simplesmente à árvore”.
E aí a totalidade em movimento falará mais alto do que o próprio inquérito, na medida que o que consta nos autos obedecem às regras do direito, o que tende a produzir um grande vazio em relação ao entendimento do que o que ali não consta e, em especial, à necessária análise mais rica e plural dos fatos.
Pensem nisso.

Por Jansen

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