Editorial
Observando os resultados das eleições no Brasil e nos Estados Unidos da América, dois trabalhos literários se tornam necessários para tentar entender seus respectivos resultados: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo e “Pobres de direita”, de Jessé de Souza.
A obra “Les Misérables” (Os Miseráveis), um romance de Victor Hugo publicado em 1862 , é emblemático, pois descreve a vida das pessoas pobres em Paris e na França provincial do século XIX, se concentra mais particularmente no destino do condenado Jean Valjean.
O romance expõe a filosofia política de Hugo, retratando a desigualdade social e a miséria decorrente, e, por outro lado, o trabalho desempenhando uma função benéfica para o indivíduo e para a sociedade.
Como no caso de Guilherme Boulos, candidato do PSOL, em São Paulo, que se notabilizou na vida pública por apoiar ocupações de imóveis públicos abandonados, por pessoas em situação de rua, a obra de Victor Hugo retrata também o conflito na relação com o Estado, seja pela ação arbitrária do policial ou pela atitude do revolucionário obcecado pela justiça.
Na história é passada na França durante o século XIX, o protagonista, Jean Valjean, é um homem comum que se vê obrigado a alimentar a sua família faminta e, para tanto, rouba um pão da vitrine de uma padaria. O jovem é condenado a cinco anos de prisão por furto e arrombamento.

O passado do rapaz era trágico: Jean ficou órfão de pai e de mãe quando ainda era criança, tendo sido criado por uma irmã mais velha que já tinha sete filhos. Assim que a irmã fica viúva, o irmão torna-se o arrimo da família.
Como tenta inúmeras vezes fugir da prisão e tem um notável histórico de mau comportamento, Valjean é condenado a trabalhos forçados por dezenove anos.
Ao deixar a prisão, é rejeitado por onde passa pois todos o temem devido ao seu passado violento.
O antigo delinquente muda de identidade e torna-se dono de uma fábrica na Alemanha, onde ninguém conhece o seu passado obscuro. Apesar de ter conseguido construir um novo destino, Valjean vive assombrado pela possibilidade de ser reconhecido.
Na outra ponta, tem a obra de Jessé de Souza, que em uma interpretação inédita surpreende ao indicar, resultados eleitorais, como o mais recente, nos EUA, elegendo Donald Trump, mostra que o racismo – e não o ganho econômico nem a pauta dos costumes – está na raiz da virada moralista que catapultou a extrema direita, tanto lá, como no Brasil. Jessé Souza não é um sociólogo que se esconde atrás de palavras difíceis. Seu trabalho, que ganha cada vez mais destaque na opinião pública, não apenas dá as linhas de uma teoria social inovadora como também investe em explicações para questões urgentes que são espelho da situação sociopolítica.

É isso o que vemos neste livro que põe no alvo um dos debates atuais mais acalorados. Afinal, o aumento do apoio popular à extrema direita é um fenômeno recente que, a partir de 2018, mudou completamente o panorama das corridas eleitorais. Essa adesão repentina de boa parcela das classes empobrecidas aderiu às pautas da extrema direita justamente no momento histórico em que houve uma melhora significativa das condições de vida. O que justifica o apoio dos mais pobres a políticos que retiram direitos e benefícios se concentra em dois grupos – o branco pobre e o negro evangélico – como modelos desse engajamento. Ao ouvir diretamente as reclamações das pessoas de tais grupos, o sociólogo nos faz perceber, por exemplo, como as demandas racistas da maioria populacional branca passam também a ser defendidas pela população racializada, que, muitas vezes, sofre forte influência dos segmentos evangélicos que apostam na dominação política.
Por esse caminho, Jessé Souza propõe uma interpretação inédita e mais profunda do Brasil, na qual o novo arranjo conservador, que alimenta a extrema direita, se revela além das demandas econômicas ou da pauta dos costumes. É por dentro dessa colcha de identificações, estratificações sociais, fervor religioso, diferenças regionais e imaginação política que o autor reflete sobre as principais causas da “vingança dos bastardos”.
Assim, torna-se possível examinar, de fato, como pensam esses grupos sociais ressentidos que passaram a se organizar nas sombras da principal promessa da Constituição Cidadã – a construção de um Brasil democrático, justo e igualitário, sem discriminações e com garantias universais.
A leitura dessas obras, com certeza, fará com que entendamos o que está acontecendo.
O Editor






